Summary
Highlights
Boas-vindas à primeira atividade do CEP de 2025, focando no debate "Está todo mundo louco?". Os palestrantes, Dra. Ariane Angelelli (psiquiatra), Dra. Cássia Garcia Gomes (psicóloga), Dra. Karin de Paula (psicanalista) e Dr. Ricardo (psicanalista), serão apresentados. É explicado que o núcleo de Formação Permanente e Prática em Psicanálise e Psicose está aberto para novas inscrições, oferecendo discussões teóricas, estágios e palestras.
Ariane inicia sua fala agradecendo o convite e aborda a pergunta "Estamos todos loucos?". Ela reflete sobre a sutileza entre "estão" e "estamos" e sua inclinação ou não ao grupo de loucos. Inspirada pelo conto 'O Alienista' de Machado de Assis, ela critica a posição isolada do alienista que considera todos loucos, exceto a si mesmo. Ariane conecta a obra de Machado com o contexto histórico do primeiro hospício brasileiro, criticando a psiquiatria higienista e eugenista que culminou no nazismo. Ela menciona como psiquiatras antigos, antes dos neurolépticos, focavam na conversa para entender os delírios, diferentemente do foco atual na psicofarmacologia.
Ariane discute a contemporaneidade e o impacto da internet, que nos confunde com excesso de referências, metaforicamente diluindo a figura paterna e acelerando tudo, dificultando a metabolização das experiências. Ela compara essa percepção atual com relatos históricos sobre a aceleração e mudanças em diferentes épocas, desde o século XVIII, mostrando que a sensação de 'enlouquecimento' não é nova. Ela cita Paulo Dalgalarrondo sobre psiquiatria transcultural e a relatividade das doenças mentais. Por fim, aborda a patologização e medicalização de crianças, criticando a superficialização dos diagnósticos na psiquiatria infantil, que se tornou o "último bastião do olhar do Alienista".
Cássia Garcia Gomes começa sua fala destacando a importância de diferenciar loucura, sofrimento e transtorno mental, conceitos frequentemente usados como sinônimos, o que fortalece estigmas e dificulta o respeito a formas de existir diferentes. Ela enfatiza que nem toda loucura é fonte de sofrimento e que a psicose, assim como a neurose, é uma forma de existir, embora a sociedade tenda a normalizar a neurose. Ela questiona a patologização da vida e a busca incessante por diagnósticos, influenciada por uma sociedade que gera sofrimento mental através de contradições estruturais.
Cássia explica o funcionamento dos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) na saúde pública, criados para oferecer cuidado comunitário e intensivo a pessoas com transtornos mentais graves. Ela destaca que, nos CAPS, o foco não é apenas o diagnóstico, mas sim o cuidado integral da pessoa e a construção de sua autonomia através de intervenções individuais e grupais. A intersetorialidade é crucial, pois muitos aspectos do cotidiano (moradia, alimentação, educação) não podem ser cuidados apenas pela saúde. A construção do Projeto Terapêutico Singular (PTS) deve ser feita junto com o usuário, valorizando suas potências e dificuldades, e o laço social é fundamental para a intervenção no sofrimento.
Cássia ressalta que o sofrimento se estabelece e se altera conforme o tempo e o contexto, e que a patologização da vida, que transforma luto e violência em transtornos, é um problema. Ela discute a busca por diagnósticos como uma forma de justificar a insuportabilidade de existir em um mundo com altas expectativas, que culmina na desingularização dos sujeitos e até no suicídio. O CAPS busca nomear o sofrimento para que o usuário possa lidar com ele, sem, no entanto, cristalizá-lo ou torná-lo um novo estigma. A discussão com a plateia aborda a importância da escuta antes do sofrimento e como a sociedade contemporânea lida com a diferença.
Karin de Paula complementa a discussão, relembrando a frase de Freud sobre o tratamento do 'Homem dos Lobos', que ele buscaria a causa de seus males nele mesmo. Karin enfatiza que a dessubjetivação e patologização da loucura são sintomas do fracasso do projeto civilizatório. Ela destaca que a loucura não elaborada retorna do Real como algo bruto e devastador, e que o laço social é a única possibilidade para lidar com ela. A psicanálise, com sua ética do desejo, pode contribuir na produção da singularidade, que a loucura sempre comporta. Ela defende que tanto na neurose quanto na psicose, o objetivo é produzir um estilo próprio de existir.
Karin enfatiza que a psicanálise rompe com a distinção entre saudável e doente, mostrando que o inconsciente habita a todos. O debate se aprofunda na questão dos diagnósticos, e Cássia ressalta que o problema não é o nome em si, mas o uso que se faz dele – como uma ferramenta para aliviar o sofrimento ou para justificar e cristalizar. Ariane reforça essa ideia, separando sua prática analítica da psiquiátrica em sua rotina, e discute como um diagnóstico pode trazer alívio ao nomear uma angústia inominável, mas também o risco de se tornar uma identidade fixa, como observado no 'boom' de diagnósticos de autismo.
A discussão volta à importância da multidisciplinaridade, onde diferentes abordagens podem sustentar o indivíduo em seu processo de cuidado. Ariane e Cássia reforçam que o sofrimento, mesmo quando não verbalizado, se manifesta de outras formas, e o papel do profissional é ajudar a nomeá-lo e promover espaços de fala e existência, sem patologizar a vida ou cristalizar o sujeito em um diagnóstico. A promoção da saúde mental não é apenas evitar o adoecimento, mas construir possibilidades de viver que contemplem a singularidade e promovam menor sofrimento, entendendo que o sofrimento é inerente à condição humana.
Os participantes agradecem as falas ricas e a interação do público. Ricardo convida a todos para acompanhar as próximas palestras e seminários teóricos do núcleo de psicanálise e psicose no site, ressaltando o valor do debate e a comunicação gerada entre os participantes. O evento é encerrado, com a expectativa de continuidade do diálogo e participação em futuras atividades.