Summary
Highlights
A palestra começa abordando a percepção grega das mulheres, focando na Atenas Clássica devido à abundância de informações e arte. O discurso é dividido em três partes: como os gregos viam as mulheres, como elas eram representadas na arte e se as mulheres conseguiam expressar sua própria perspectiva. É enfatizado que o mundo antigo, e Atenas em particular, era um ambiente patriarcal, visto como um 'clube de homens'. Já no século VI a.C., a misoginia era evidente, com poetas como Hesíodo e Semônides descrevendo as mulheres como a 'maior calamidade que Zeus criou', associando-as à engano e problemas. Essa misoginia é parcialmente atribuída ao contexto de colonização grega, onde a escassez de recursos tornava a reprodução feminina um problema.
A mulher ideal na Grécia antiga era silenciosa, pudica e de olhar baixo. Aristóteles a descrevia como um ser incompleto. Nos tratados hipocráticos, o corpo feminino era associado a elementos 'menos nobres' e considerado fraco. A histeria, por exemplo, era atribuída ao útero errante. As mulheres eram vistas como o oposto dos homens: úmidas, moles e desarticuladas, sendo o 'sexo fraco'. Culturalmente, as mulheres eram associadas ao lado esquerdo, enquanto os homens, ao direito. A mitologia grega, com a figura de Pandora, a primeira mulher, reforçava essa visão. Pandora, criada como um castigo para os homens, liberou todos os males da humanidade. Outro exemplo é Helena de Troia, cuja beleza é atribuída como a causa da Guerra de Troia. As flores eram frequentemente masculinas nos mitos, enquanto monstros como as sereias e as Górgonas eram femininos, simbolizando o aspecto temível do feminino.
A palestra destaca que, além dos mitos, figuras femininas em tragédias gregas também exibiam comportamentos monstruosos. Medeia, uma feiticeira que trai sua família por Jasão, mata seus próprios filhos em um ato de vingança quando ele a abandona. Sua reflexão sobre o sofrimento feminino no casamento é citada. Outra figura é Procne, cuja história de vingança contra seu marido, Tereu, após ele estuprar e mutilar sua irmã Filomela, culmina no assassinato e banquete do próprio filho do casal. A estátua de Procne com seu filho, criada por Alcámenes, é vista como um alerta às mulheres atenienses sobre os perigos de se casarem com estrangeiros, especialmente após a lei de Péricles que exigia que ambos os pais fossem atenienses para a cidadania. A concepção grega de amor era prevalentemente homoafetiva masculina, vendo o amor heterossexual como uma mera necessidade para a reprodução.
As mulheres gregas se casavam entre 13 e 15 anos com homens mais velhos, em casamentos arranjados onde não tinham voz. A expectativa era que fossem discretas e sem perguntas. A mortalidade feminina era alta, especialmente durante o parto, e a expectativa de vida masculina era maior, levando muitas mulheres a se casarem novamente após a viuvez. Havia uma desigualdade demográfica, com mais homens que mulheres, exacerbada pela exposição de crianças, predominantemente meninas. O custo elevado de ter uma filha devido ao dote as tornava menos desejáveis que os meninos. Até mesmo a alimentação era discriminatória, dando prioridade aos meninos. O casamento era simbolizado pela mudança da mulher para a casa do noivo, e sua principal função era a 'lavoura de filhos legítimos'. A mulher era vista como o terreno passivo, enquanto a semente masculina era o elemento ativo na concepção.
Frasiclea, uma jovem noiva que morreu antes do casamento, é usada para ilustrar o destino das mulheres que não chegavam a 'florescer'. Seu monumento funerário a descreve perpetuamente como 'Core' (donzela, mas também Perséfone), simbolizando a união post-mortem. A representação da mulher ideal no frontão do Partenon mostra mulheres em fila, de cabeça baixa, vestidas e silenciadas, perdendo seus nomes em favor dos de seus maridos. Penélope, esposa de Ulisses, é o modelo de virtude feminina, dedicada a tecer e aguardar em seu gineceu, o espaço feminino da casa. Alcestis, que se oferece para morrer por seu marido Admeto, é outro exemplo de mulher admirável, que abdica de sua vida em prol do cônjuge. Ambas representam a idealização da passividade, do sacrifício e do confinamento doméstico.
As mulheres, por natureza, eram consideradas cheias de defeitos, a menos que educadas por homens. Defeitos incluíam promiscuidade, gula e bebedeira descontrolada, características que as aproximavam de seres selvagens. Um vaso de bebida mostra uma escrava bêbada, ilustrando a visão negativa dos gregos sobre mulheres que bebiam. O banquete (symposium) era um espaço exclusivamente masculino, onde heteras (prostitutas cultas) podiam participar, ao contrário das esposas, que permaneciam confinadas, denotando uma clara divisão de espaços e funções sociais. Os contra-modelos sociais incluíam as Mênades, seguidoras de Dioniso, representadas como mulheres ensandecidas pelo deus, selvagens e perigosas, capazes de atos de violência extrema, como o desmembramento de Penteu. As Amazonas, guerreiras que subvertiam os papéis de gênero, também eram vistas como uma ameaça ao modelo social ateniense, reforçando a imagem da mulher como intrinsecamente selvagem, a qual precisava ser controlada e domesticada.
A palestra apresenta imagens de mulheres gregas em situações 'cotidianas', como buscar água em fontes, um tema popular em vasos por um curto período. Essas representações geram debate sobre o real acesso das mulheres a espaços públicos, pois as fontes eram consideradas locais de perigo, como a violação. A presença de homens trabalhadores nas fontes, em contraste com a ornamentação das mulheres, sugere uma distinção social e o perigo que esses encontros poderiam representar. O final do século V a.C. marca uma mudança notável na iconografia. Após as perdas humanas na Guerra do Peloponeso e a peste, a escassez de homens leva a uma maior visibilidade e representação das mulheres na arte. O epinetron, um objeto de tecelagem feminino, passa a ser um presente de casamento decorado com cenas femininas, refletindo essa nova atenção. Mitos como o de Amimone e Posidão, ou o Julgamento de Páris, que enfatizavam relações e paixões, ganham destaque, substituindo as cenas de batalha e heroísmo masculina. A história de Ariadne e Dioniso, com seu casamento que confere imortalidade, torna-se extremamente popular, simbolizando o desejo feminino por um bom esposo e a idealização de um relacionamento romântico e fiel.
A virada iconográfica culmina na criação da primeira estátua de uma mulher nua na história da arte grega: a Afrodite de Cnido, de Praxíteles, no século IV a.C. Diferente do nu masculino heroico, a Afrodite de Cnido representa uma deusa em um momento íntimo, surpreendida em seu banho, que reage com um leve pudor e sorriso. Essa representação humaniza a divindade e evoca emoções no observador, simbolizando uma mudança de foco na arte grega para o sentimento e a narração. O templo de Afrodite em Cnido se tornou um local de adoração e fascínio, onde a estátua era tão famosa que as pessoas viajavam para vê-la. O sucesso dessa obra inspirou inúmeras 'Vênus' helenísticas e romanas, moldando a representação feminina na arte ocidental. No entanto, mesmo com o nu feminino, a distinção em relação ao masculino persistia: o homem nu não precisava de desculpa, enquanto a mulher precisava de um contexto (o banho) para justificar sua nudez, reafirmando que a mulher continuava a ser 'coyuntura' e 'narração' na arte grega.