Summary
Highlights
Aristóteles, em 'Ética a Nicômaco', Livro II, aborda a natureza das virtudes. Ele distingue entre virtudes intelectuais, que se geram e crescem através do ensino, da experiência e do tempo, e virtudes morais, que são adquiridas por meio do hábito. É ressaltado que as virtudes morais não surgem em nós por natureza, pois nada natural pode agir contra a sua própria natureza (como uma pedra que sempre cai para baixo não pode ser habituada a subir). Contudo, a natureza nos adapta a receber essas virtudes, que se tornam perfeitas pelo hábito. Diferentemente dos sentidos, que possuímos antes de usar, as virtudes são adquiridas pelo exercício, semelhante ao que ocorre nas artes: tornamo-nos justos praticando atos justos, e assim com a temperança e a bravura. Os legisladores, inclusive, buscam tornar os cidadãos bons através de hábitos, demonstrando a importância do agir correto para a formação do caráter.
As virtudes e vícios surgem e são destruídos pelas mesmas causas e meios. Atos justos ou injustos nos tornam justos ou injustos. O caráter se forma por atividades semelhantes, o que destaca a necessidade de prestar atenção à qualidade dos atos praticados. A investigação de Aristóteles não é teórica, mas visa a tornar-nos melhores. Reconhece-se que as questões de conduta não possuem fixidez e exigem que cada pessoa considere o que é mais apropriado à ocasião. A virtude pode ser destruída pelo excesso ou pela falta, como a força pela falta ou excesso de exercício. A mediocridade, no entanto, a preserva. A temperança e a coragem são destruídas pelo excesso e pela falta, sendo preservadas pela mediania. O prazer e a dor são indicadores do caráter: quem se abstém de prazeres e se deleita nisso é temperante, e quem o faz com sofrimento é intemperante. A excelência moral está ligada a prazeres e dores, e a educação deve nos habituar a sentir prazer e dor de forma adequada, como Platão sugere.
Aristóteles busca definir a virtude, observando que na alma existem três tipos de coisas: paixões, faculdades e disposições de caráter. As paixões são sentimentos acompanhados de prazer ou dor (apetite, cólera, medo, etc.). As faculdades são as capacidades de sentir essas paixões. As disposições de caráter são o modo como nos posicionamos em relação às paixões (bom ou mau). Argumenta-se que a virtude não pode ser paixão nem faculdade, pois não somos louvados ou censurados por senti-las, nem as 'possuímos' por escolha, e as faculdades são inatas. Portanto, a virtude deve ser uma disposição de caráter. Uma virtude coloca a coisa em boa condição e faz com que sua função seja bem desempenhada. Assim, a virtude do homem é a disposição de caráter que o torna bom e o faz desempenhar bem sua função. Em tudo que é contínuo e divisível, pode-se ter mais, menos ou uma quantidade igual, sendo o igual um meio-termo entre o excesso e a falta. O meio-termo, na virtude moral, não é absoluto, mas relativo a nós, diferindo de pessoa para pessoa.
A virtude moral é definida como um meio-termo, buscando o equilíbrio entre o excesso e a falta. Assim como um mestre de arte evita o excesso e a falta, buscando o meio-termo, a virtude também almeja a mediania nas paixões e ações. Em excesso ou deficiência, ambas são um mal, mas sentidas na ocasião, com os objetos, pessoas, motivo e maneira apropriada, representam o meio-termo e a excelência da virtude. Por exemplo, o medo e a confiança podem ser sentidos em excesso ou de forma insuficiente, o que é um mal. A virtude é acertar, digna de louvor, sendo uma espécie de mediania. O mal pertence ao ilimitado, e o bem ao limitado, como pensavam os pitagóricos. É fácil errar e difícil acertar. A virtude, portanto, é uma disposição de caráter relacionada com a escolha, consistindo numa mediania relativa a nós, determinadas pela razão, entre dois vícios (um por excesso e outro por falta).
Nem toda ação ou paixão admite um meio-termo; algumas implicam maldade em si mesmas, como o adultério, furto ou assassinato. Nesses casos, não há retidão, apenas erro. É absurdo buscar um meio-termo para atos injustos ou libidinosos. A virtude é um meio-termo louvável, mas reconhece-se que, para atingi-la, às vezes é preciso inclinar-se para o excesso ou para a deficiência, a fim de compensar nossas tendências naturais. Em suma, a virtude moral é um meio-termo. No entanto, sua aplicação é difícil, especialmente em casos particulares, já que as circunstâncias são variáveis e a decisão final reside na percepção individual. No que se refere a sentimentos como medo e confiança, a coragem é o meio-termo, o excesso de audácia é temerário e a falta de audácia é covardia. Em relação a prazeres e dores, a temperança é o meio-termo e a intemperança é o excesso. A liberalidade é a mediania na distribuição de dinheiro, entre a prodigalidade (excesso) e a avareza (deficiência). Outros exemplos incluem a magnificência, o justo orgulho, a calma (em relação à cólera), a veracidade e a espirituosidade.
Existem três espécies de disposições: duas são vícios (excesso e deficiência) e uma é virtude (o meio-termo). Cada disposição extrema se opõe tanto ao meio-termo quanto ao outro extremo. O meio-termo é oposto a ambos os extremos. Por exemplo, o bravo parece temerário ao covarde e covarde ao temerário. A maior contrariedade é observada entre os extremos, pois estão mais distantes entre si do que do meio-termo. Um extremo pode, por vezes, apresentar semelhança com o meio-termo, como a temeridade com a coragem, enquanto o outro extremo (covardia) é mais distante. Essa oposição deriva de dois motivos: um inerente à coisa (um extremo ser mais próximo da virtude que o outro) e outro em nós mesmos (nossas tendências naturais). Tendemos mais aos prazeres, e por isso a intemperança (excesso) é mais contrária à temperança.
Ser bom, ou seja, atingir a virtude moral, não é fácil, pois encontrar o meio-termo é difícil (como encontrar o centro de um círculo). É fácil sentir raiva ou gastar dinheiro, mas fazê-lo na medida certa, com a pessoa certa, na ocasião e pelo motivo correto, não é para qualquer um. Por isso, a bondade é rara, nobre e louvável. Quem busca o meio-termo deve evitar o extremo mais contrário a ele. Como é extraordinariamente difícil acertar no meio-termo, devemos nos contentar com o menor dos males. É preciso considerar a que extremos somos mais facilmente arrastados e nos esforçarmos na direção oposta, afastando-nos o máximo possível do erro. Devemos nos defender do prazer, pois ele dificulta o julgamento imparcial. Não se censura quem se desvia um pouco da bondade, mas apenas quem erra de forma mais significativa. A determinação exata do ponto onde termina o desvio aceitável é difícil e depende das circunstâncias particulares, sendo decidida pela percepção.