Summary
Highlights
A virtude está ligada a paixões e ações voluntárias, que merecem louvor ou censura, enquanto as involuntárias inspiram perdão ou piedade. Ações compulsórias ou por ignorância são involuntárias, com a causa estando fora do indivíduo. Ações mistas, feitas para evitar males maiores, são mais próximas das voluntárias, pois são escolhidas no momento, embora em abstrato, ninguém as escolheria. A ignorância das circunstâncias específicas do ato pode levar a ações involuntárias, especialmente se houver dor e arrependimento.
A escolha, embora voluntária, não se confunde com o voluntário em sua totalidade. Não é apetite, cólera, desejo ou opinião. O desejo pode ser de coisas impossíveis, a escolha não. O desejo visa o fim, enquanto a escolha se relaciona com os meios. A escolha envolve deliberação sobre coisas que estão ao nosso alcance e que podem ser realizadas pelos nossos esforços. É um desejo deliberado de meios para alcançar um fim.
O fim é objeto de desejo, que pode ser o bem real ou aparente. Para o homem bom, o bem é o objeto do desejo; para o mau, o bem aparente. Ações relativas aos meios devem ser voluntárias. A virtude e o vício estão em nosso poder, pois depende de nós agir ou não agir. Pessoas são punidas por ignorância quando são responsáveis por ela, como no caso da embriaguez ou negligência. Somos responsáveis por nossas disposições de caráter e vícios, e uma vez formados, não é fácil mudá-los.
A coragem é o meio-termo em relação aos sentimentos de medo e confiança. Relaciona-se com coisas terríveis, especialmente a morte em batalha, vista como a mais nobre. Existem diferentes tipos de coragem, como a do cidadão soldado (motivada por honra e desgraça), a experiência (conhecimento de perigos), e a paixional (impulso emocional). A verdadeira coragem é suportar o terrível porque é nobre fazê-lo, e não por medo de escapar à dor ou por autoengano de otimismo.
O excesso de destemor leva à temeridade, uma espécie de loucura ou insensibilidade. O temerário é jactancioso, pois imita a coragem em situações menos perigosas, mas recua diante do perigo real. O homem que cede ao medo é um covarde, temendo o que deve e o que não deve, com excesso de medo em dificuldades. A coragem mantém-se na posição mediana. O covarde é propenso ao desespero, enquanto o bravo demonstra confiança.
A coragem relaciona-se mais com as coisas que inspiram medo. É um ato que envolve dor e é louvada por isso, pois é mais difícil enfrentar o doloroso do que resistir ao agradável. O fim da coragem é agradável (a honra), mas é velado pelas circunstâncias dolorosas do perigo. Quanto mais virtuoso e feliz o homem, mais dolorosa é a ideia da morte, tornando seu ato de coragem ainda mais notável ao escolher a nobreza em detrimento de um grande bem.
A temperança é o meio-termo em relação aos prazeres corporais, e a intemperança manifesta-se na mesma esfera, mas também se refere menos às dores. A temperança não se relaciona com prazeres da alma (como honra ou estudo) nem com os sentidos da visão, audição ou olfato, exceto incidentalmente. Relaciona-se principalmente com os prazeres do tato e do paladar, considerados mais inferiores e brutais, pois são compartilhados por outros animais.
Alguns apetites são comuns a todos (naturais: alimento, bebida), outros são peculiares e adquiridos (individuais: gostos específicos). Os apetites naturais raramente levam ao erro por deficiência, mas sim por excesso. Os individuais levam a erros de muitas maneiras: desejar coisas indevidas, em excesso, ou de maneira inapropriada. O intemperante sofre com a ausência e o desejo de prazer, o que é um paradoxo, já que busca prazer, mas experimenta dor.
É raro encontrar pessoas insensíveis aos prazeres. O temperante ocupa uma posição intermediária, não apreciando os excessos do intemperante. Ele deseja moderadamente os prazeres que contribuem para a saúde ou boa condição do corpo e que não impedem atos nobres, nunca em excesso ou de maneira imprópria. A intemperança é mais voluntária que a covardia, pois é impulsionada pelo prazer, que é buscado, enquanto a dor (na covardia) é evitada. Os apetites devem ser moderados e submissos à razão, como uma criança ao seu preceptor, harmonizando o elemento apetitivo com o racional.